“Os comerciantes são os grandes heróis do bairro. O Estado e seus agentes são os grandes vilões. O real crescimento de Sepetiba gira em torno dos pequenos comércios e não de governadores, prefeitos e vereadores.”
[Rio de Janeiro, 01 de Outubro de 2019; Brad Pághanni.]

Todos os ramos do saber precisam de um norte. A economia nada mais é que, a ciência que estuda sobre como lidar com a escassez. Gerar riqueza é apenas uma das ferramentas sobre como fazer isto.

Sepetiba – um bairro de 57 mil habitantes – tem como principal movimentação econômica, os pequenos e médios negócios. Também, atividades de pesca e artesanato. Aos sábados, o bairro tem a sua tradicional feira, onde é possível encontrar aos mais variados produtos de diversos segmentos.

Sepetiba é um bairro pacato, com baixo índice de violência e que conta com constantes rondas de viaturas policiais. Já foi cenário de gravações de famosas novelas e apesar de seu altíssimo índice de poluição (mar e ruas) – presenteia seus moradores com um inigualável entardecer.

Sepetiba faz divisa com Santa Cruz – um bairro com mais movimentação comercial, e Guaratiba – ainda mais pacato; e tem como característica uma divisão peculiar. Sepetiba é conhecido com pontos específicos: Praia do Cardo, Praia do Recôncavo (antiga Dona Luíza), Praia de Sepetiba, Alagado, Bomba, Balneário Globo, Vitória Régia, Coreto, Cajueiros, Coqueiral e Mangueira. Há quem diga que Nova Sepetiba, apesar de seu nome, faz parte de Santa Cruz.

Com altíssima deficiência na saúde, educação, transportes e infraestrutura e com ausência praticamente quase total de qualquer representante governamental (governador, prefeito e vereadores) a principal atividade econômica do bairro são os comércios.

Como todos sabem, a carga tributária no Brasil é muito grande, e a burocracia para empreender é ainda maior. A intervenção do Estado na vida privada, em todo país é imensa e isso interfere e muito de forma negativa quando o assunto é empreendedorismo – o que torna os comerciantes de Sepetiba, verdadeiros heróis. Impostos são recolhidos, e categoricamente não são repassados adequadamente para o bairro. As ruas de Sepetiba sofrem com sujeira, alagamento e muitos buracos, falta de sinalização, e não há, por parte do poder público uma constante manutenção. A fraca representação do bairro em esfera política também é um grande obstáculo.

Isso faz com que muitos negócios em Sepetiba sejam prejudicados, especialmente em assuntos de logística. Até chegar em Sepetiba, entregadores enfrentam muitos obstáculos, o que pode atrasar ainda mais o desempenho dos empreendedores.

A escassez de escolas de qualidade, museus, cursos e faculdades faz com que haja uma evasão para outros bairros, tirando de Sepetiba o capital humano. Sepetiba produz para outros bairros, profissionais qualificados também em outros bairros para trabalhar nestes outros bairros, fazendo com que os negócios locais não sejam tão atrativos para candidatos à colaboradores. Isso afeta o desenvolvimento da região, já que o comércio é o principal gerador de riqueza da região, e também, uma vez que a mão de obra qualificada e profissional não pode ser tão valorizada no bairro, frente à concorrência em bairros maiores e mais estruturados – que oferecem mais oportunidades, serviços e produtos.

A falta de estrutura e de uma relevante representação política faz com que os comércios tenham menos movimento e gerem menos riqueza, promovendo um efeito dominó em diversos setores. O valor imobiliário cai; novos e possíveis investidores (empresas grandes) se abstém de olhar para a região devido a insegurança estrutural e com isso, deixam de levar para o bairro mais desenvolvimento. A dificuldade de logística e entregas faz com que os comerciantes tenham mais dificuldades em inovar, trazendo novos serviços ou investindo em tecnologia e novos produtos.

Muitos segmentos são escassos em Sepetiba. A venda de móveis e eletrodomésticos, carros e produtos de valores mais altos não preenchem relevantemente o quadro de negócios em Sepetiba justamente porque não há estrutura e urbanização.

Empresários de outras regiões não poderiam gerar riqueza em Sepetiba – uma vez que os impostos não são adequadamente revertidos para a população. Isso diminuiria o lucro de possíveis empresas em potencial de investimento, afastando a atratividade do local.

Com isso, moradores de Sepetiba precisam movimentar a economia de outros bairros, com mais estrutura – já que possuem bancos, correios, transportes, delegacias, hospitais. São em locais mais estruturados que as empresas querem investir.

Por isso é possível encontrar em bairros vizinhos, shoppings, centros comerciais, lojas de móveis e eletrodomésticos, supermercados, concessionárias de automóveis, hotéis, entre outros. São justamente estes nichos que geram emprego, e quanto mais emprego, menos pessoas pobres. E quanto menos pessoas pobres, mais consumo. E quanto mais consumo, mais lucro, mais empresas e, por conseguinte, mais investimento.

ONGs e ativistas da região atribuem a desaceleração do crescimento do bairro às condições das praias e dos mangues. Um dos mais antigos bairros do Brasil, Sepetiba – um bairro histórico – com importante passagem pela história da Família Real, tem como uma de suas programações, o ecoturismo. Não somente isto; um sítio arqueológico, que infelizmente se encontra em um desagradável estado, complementa o enriquecimento dessa experiência.

Comércios das orlas fecharam, e moradores e estudiosos atribuem essa onda de empresas quebrando à poluição da Baía de Sepetiba – que atrapalham o setor alimentício, pesca e venda de frutos do mar e investimentos em restaurantes locais e adjacentes. Milhões de litros de esgoto são jogados na baía, que não tem passagem o suficiente para o mar aberto, otimizando o acúmulo dessas substâncias poluentes. Empresas em Itaguaí, um bairro que divide a mesma baía, também são constantemente acusadas por moradores de Sepetiba pela a poluição da baía – sem que haja o mínimo de fiscalização por parte do Governo.

Moradores e iniciativa privada tentam levar atividades à região, promovendo ações sociais que valorizam a cultura. Cinema na Praia, surf, oficinas de artesanato e atendimento social são alguns dos exemplos.

Por outro lado, com o aterro promovido na Praia de Sepetiba, festas de rua são realizadas nas redondezas, especialmente em frente à Igreja de São Pedro, onde o espaço para palcos e barracas é mais amplo.

Entre comércios e barracas, formais e informais, tais festas, ainda assim com pouca estrutura, conseguem aquecer uma pequena porcentagem da economia do bairro.

Os transportes em Sepetiba também são outros grandes desafios. Além de Sepetiba não produzir profissionais pela escassez de recursos e instituições públicas e particulares, os moradores que optam por se profissionalizar, necessitam muitas vezes de condução pública para sair do bairro. Atualmente para que alguém saia de transporte público do pequeno bairro, o morador precisa investir longos 40 minutos para tal feito; algo que deveria levar em torno de 15-20 minutos.

Para os que tentam progresso em outros bairros, o grande desafio é fazer com que as empresas aceitem as condições dos candidatos por morar tão distante – uma vez que sair de Sepetiba pode ser um trabalho árduo devido à escassez de transportes, gerando atrasos. Sepetiba conta com praticamente uma linha de ônibus – o 884 Sepetiba X Campo Grande. Outras linhas como 898 e 547 são bem escassas e sucateadas, mas ainda existem. Para os demais locais, apenas transportes complementares de baixa qualidade. A principal linha de ônibus de Sepetiba, faz a ponte com o BRT – um dos principais e mais sucateados transportes de todo o município do Rio. Não há um ônibus independente que ligue Sepetiba com Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca, Bangu e outros bairros.

A cada ano que passa, mais pessoas migram para Sepetiba em busca de paz. Sepetiba, apesar de todos os seus problemas estruturais, é sem dúvidas um dos locais mais calmos do Rio de Janeiro – quiçá do Brasil. Contudo, a maioria das pessoas que fazem essa migração são aposentados.

Para resolver essas questões, os gestores públicos precisam olhar em primeiro lugar, a infraestrutura do bairro. As empresas, que são as verdadeiras fontes de riqueza e desenvolvimento precisam se sentir atraídas pela região. A constante falta de água e os buracos no asfalto precisam ser resolvidos, para que os empreendedores possam produzir mais e melhor, melhorando também, seus esquemas de logística. É necessário que se coloque um posto policial também, para que Sepetiba não dependa dos bairros vizinhos para ter segurança. É necessário que haja fiscalização sobre o meio ambiente, evitando a poluição e a degradação natural e rica que o bairro possui.

Questões além do bairro também precisam ser resolvidas. É necessário que façam a desburocratização em todos os setores, para que o processo de empreender seja mais simples e vantajoso. É necessária a flexibilização de leis trabalhistas e, principalmente, a reforma tributária.

Com o mínimo de estruturação possível, outras entidades naturalmente adentrarão em Sepetiba – levando mais conhecimento, oportunidades, empregos e riqueza. É necessário se fazer com que moradores possam usufruir de saúde, empregabilidade, educação (incluindo a superior), lazer, esporte, cultura e entretenimento sem precisar sair do bairro.

Esses fatores como alta carga tributária geram efeitos em regiões mais ricas, causando estragos. Regiões mais deficientes como Sepetiba sofrem ainda mais.

A ausência de políticas públicas para a fomentação do empreendedorismo, faz com que o comércio seja limitado – não tendo concorrência entre si, não gerando vantagem, então, para o consumidor.

Aliás, a ausência de concorrências faz com que o empreendedor se acomode e não inove em suas criações, serviços e produtos. O Estado precisa criar um ambiente propício para que empreendedores possam investir no bairro e aumentar a qualidade de vida dos moradores, tanto a nível colaboradores quanto a nível consumidores.

A criação de empregos formais em Sepetiba precisa ser fomentada, e isso só se dá através de um incentivo à educação e formação para mão de obra qualificada e profissional dentro da própria região.

Em Sepetiba há pelo menos duas instituições privadas de ensino que, em parceria com universidades, oferecem cursos superiores na modalidade EAD. Contrapartida, não se vê esta mesma iniciativa por parte do governo. As empresas, para conseguirem levar o desenvolvimento, remam contra a maré.

Este mesmo problema acontece em esferas como a saúde, a cultura, o esporte e o lazer.

Sepetiba precisa produzir cidadãos para Sepetiba, qualificados por Sepetiba, e que se forem qualificados por outras regiões, esses profissionais precisam ser incentivados a fazer mais pelo bairro. E eles só conseguirão fazer isto através da fomentação do empreendedorismo – que nasce a partir do momento em que o Governo dá o incentivo para isto.

E como o Governo faz isto? Em esfera federal, revertendo adequadamente os impostos, abaixando a carga tributária, flexibilizando e desburocratizando o processo de empreendedorismo, descentralizando o poder, privatizando algumas instituições de ensino e saúde, e dando às Unidades Federativas o princípio de subsidiariedade e o direito à propriedade privada.

Pensando nisso, os moradores de quaisquer bairros, incluindo os moradores de Sepetiba, poderão cobrar diretamente e de forma mais rápida, iniciativas do Governo. Essa descentralização e o princípio de subsidiariedade, com certeza trazem mais eficiência na hora de cobrar e executar.

Nos Estados Unidos, as leis são distritais. Quando um conjunto de distritos adotam as mesmas leis, elas viram municipais. Quando um conjunto de municípios adotam as mesmas leis, elas viram estaduais. Quando um conjunto de Unidades Federativas adotam as mesmas leis, elas viram federais. Assim, os estadunidenses têm mais acessibilidade aos seus governantes.

E ao contrário do Brasil, existe uma fomentação ao empreendedorismo nos Estados Unidos.

Portanto, enquanto cidadão, jamais se iluda com a ajuda do Estado. O que ele precisa fazer é atuar o mínimo possível na vida privada, mas revertendo adequadamente seus impostos, gerando um ambiente propício para que o próprio mercado dite as regras.

Sepetiba é um exemplo muito claro disso. Enquanto prefeitos e vereadores visitam o bairro prometendo colocar recapeamento barato em asfalto em épocas de eleições, quem realmente está gerando emprego são os donos de mercados, padarias, consultórios e são essas pequenas e médias empresas que fazem de Sepetiba um bairro com esperanças.

Brad Pághanni é bacharel em Relações Internacionais com extensão em Educação Ambiental e também, Vida e Filosofia Corporativa pelo Centro Universitário Internacional. Pós-graduando em Master of Business Administration – Gestão Comercial, pelo Centro Universitário Barão de Mauá.

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